terça-feira, 25 de setembro de 2007

René Magritte

















Aliás, já mencionei Magritte aqui quando falei sobre o filme The Thomas Crown affair.
A próxima postagem vai tratar, portanto sobre Magritte, que disse:

"tudo quanto vemos esconde outra coisa; adoraríamos ver
o que aquilo que vemos esconde de nós..."


Baseado no livro
MAGRITTE, de Marcel Paquet, da coleção TASCHEN


(O Império das Luzes)


O trabalho de Magritte foi caracterizado por uma profunda sensibilidade a tudo que foge à compreensão. Um mistério inerente aos objetos do mundo, esse mistério que pertence a todos e a nenhum. Depressa se torna claro para quem observa a obra de Magritte que os elementos apresentam entre si um contraste agudo, causando um choque na mente do espectador, convidando-o a pensar. Seu quadro O Império das Luzes, segundo Marcel, talvez seu quadro mais famoso, onde há simultaneidade da noite e do dia torna esta afirmação clara.






(A chave de vidro)

(Perspicácia)


(Reprodução Proibida)

Um contraste diferente predomina no quadro A chave de vidro onde uma rocha paira no ar, contrastando entre o peso da pedra e a leveza que apresenta no quadro: o peso da pedra não se pode conciliar com a leveza que o quadro lhe atribui. Segundo Magritte, a realidade pode ser mudada e ser-lhe dada uma manifestação diferente no quadro; do mesmo modo, o artista pode dar às coisas uma lógica tal, que contradiga as leis da percepção comum. Magritte jogava interminavelmente com esta possibilidade de divergir da realidade. Retratava simultaneamente uma realidade de uma forma infiel - pintando o dia à noite; pintando um pássaro a partir de um modelo a sua frente, apesar do modelo ser apenas um ovo (Perspicácia) ou um espelho em que estão refletidas as costas de um homem que está de frente para ele mesmo (Reprodução Proibida).


Outra constante na obra de Magritte é a inverção ou fusão das visões de interior e exterior, ou de posições opostas ou extremas, fazendo um jogo de virar do avesso, nos perguntando o que está dentro e o que está fora. No Espelho falso o olho humano, superdimencionado, ao invés de proporcionar uma visão do que está por dentro, na alma do homem, reflete o que está fora - um céu com nuvens.














(O Espelho falso - 1935)



Da mesma forma, na tela Elogio da Dialética (uma homenagem de Magritte a Hegel) há esta fusão de interior e exterior.
(O Elogio da Dialética - 1936)



Ainda mecionando Hegel pois Magritte lia, além deste, as obras de Heidegger, Foucault, Nietzche e Platão, também a tela a seguir, chamado pelo próprio autor de As Férias de Hegel,
nos mostra sua predileção aos pensadores. Hegel foi o expoente da dialética filosófica e é outra vez inspiração do artista. Ele mesmo diz sobre o trabalho: "Pensava que Hegel... teria sido muito sensível a este objeto que tem duas funções opostas: ao mesmo tempo, não admitir água (repelir) e admitir (conter). Ele teria ficado satisfeito, creio , ou divertido (como se estivesse de férias) e chamei ao quadro As Férias de Hegel".
A ênfase na obra de Magritte parece estar sempre ligada a estimular o pensamento. É uma pintura para filósofos ou, pelo menos, para apreciadores do pensamento filosófico. Era um pintor de idéias, um pintor de pensamentos visíveis, mais do que de assuntos.
(Férias de Hegel 1958)



O improvável dentro do visual de Magritte

A tela - A Página em branco - uma homenagem de Magritte a Mallarmé que havia escrito sobre a impossibilidade de escrever numa página em branco, a Lua está numa posição inverossímel: na frente e não atrás das folhas.



Sobre a tela seguinte - Carta Branca, Magritte diz:
"Coisas visíveis podem ser invisíveis. Se alguém cavalga por um bosque, a princípio o vemos, depois não, contudo sabemos que está lá. A amazona oculta as árvores e estas ocultam-na também. Todavia os nossos poderes de pensamento abrangem tanto o visível quanto o invisível - eu faço uso da pintura para tornar os pensamentos visíveis".



Na próxima tela, nem o homem alado nem o leão têm a ver com a ponte. Parecem encarar a melancolia daqueles que sabem que a verdadeira vida está sempre em parte alguma, é coisa que não existe. Outra metáfora de Magritte que parece nos dizer que assim como o leão está num ambiente que não lhe pertence, também o homem ao seu lado de asas fechadas parecem sonhar melancolicamente em fugir, voar para outro lugar, fugindo da prisão que o mundo representa.
A este, Magritte deu o nome de A Saudade.




















A tela abaixo Magritte deu o nome de O Modelo Vermelho ( Modèle Rouge) e falou o seguinte sobre:
"o problema dos sapatos demonstra quanto as coisas mais assustadoras podem ser feitas para parecerem inofensivas através do poder da negligência. Aqui sente-se que a união do pé humano com um sapato se baseia afinal num monstruoso hábito".





No Jóquei Perdido, feito em 1948, o surreal está nas árvores que surgem como folhas esquematizadas.

Um tema recorrente na obra de Magritte

(homens com chapéu-côco)


















(Golconda - 1953)

Sobre esta tela o próprio Magritte diz:
"Há aqui um multidão de homens, homens diferentes. Quando pensamos numa multidão, contudo, não pensamos num indivíduo: do mesmo modo, estes homens estão vestidos de igual, tão simplesmente quanto possível, para sugerirem uma multidão... Golconda foi uma rica cidade da Índia, uma maravilha. Acho uma maravilha poder caminhar pelo céu na terra. Por outro lado o chapéu-côco não constitui surpresa - é um antigo complemento, nada original. O homem de chapé-côco é o Sr. Normal, no seu anonimato. Eu também uso um; não tenho vontade de me destacar das massas".




( O Mês da Vindima - 1959)

Também aqui, como em Golconda, aparecem os mesmos homens anônimas com chapéu-côco, obstruindo hermeticamente a vista para fora da janela, dando uma impressão assustadora, apesar da passividade estampada no rostos.





















(The Son of Man, 1926)
É um dos quadros mais famosos de Magritte. Ele define-o desta forma: "Tudo o que vemos esconde outra coisa, e nós queremos sempre ver o que está escondido pelo que vemos.

"My painting is visible images which conceal nothing; they evoke mystery and, indeed, when one sees one of my pictures, one asks oneself this simple question 'What does that mean'? It does not mean anything, because mystery means nothing either, it is unknowable."



(Decalcomania - 1966)

A silhueta da esquerda parece ter sido recortada das pregas da cortina.
(de novo, o homem com o chapéu-côco)



(O Mestre da escola)


Voce pode ver mais sobre Magrite clicando aqui










quinta-feira, 13 de setembro de 2007

à propósito do poderio dos Guggenheim

É a chamada do texto de Osmar Freitas Jr. na revista ISTOÉ, de 23/7/2003, quando após 13 anos, o Museu Guggenheim resolve mostrar ao público que o visita em Nova York, um mural de azulejos feito por Juan Miró em 1967 chamado ALICE, especialmente criado para o museu. Encravada na parede do salão de entrada, o mural estava escondido atrás de um tapume de madeira. Quem tem poder faz destas coisas: se dá a luxos inconcebíveis pois é uma das entidades mais ricas entre as que acolhem a arte dos séculos XX e XXI. Com um acervo tão plural e com tanta qualidade tem condições de criar exposições sobre qualquer tema. E foi numa destas que os poderosos do Guggenheim resolveram mostrar o tesouro escondido. Aproveitando uma mostra que se chamou De Picasso a Pollock - um tour pelos grandes momentos do cubismo ao expressionismo abstrato, cobrindo o período que vai de 1910 a 1960, o impressionante mural de azulejos finalmente foi revelado.
O trabalho, embutido na base das 5 rampas que circundas o prédio internamente, foi uma das últimas criações de Miró, encomendado por Thomas Messer, então presidente da Fundação Solomon R. Guggenheim, como uma homenagem póstuma a Alicia Patterson, mulher de Harry Guggenheim.
Foi executado entre 1965-1967, tem cerca de 7 metros de largura com 190 plaquetas de cerâmica moldadas por um ceramista espanhol - amigo de Miró - chamado Josep Llorens.
É uma peça absolutamente característica de Miró, que criou uma cosmologia de seus próprios símbolos-cores - um fundo cinza, que adquire tonalidades prateadas conforme a incidência da luz, com taços e pontos emblemáticos em amarelo, preto, vermelho e azul. No meio foi grafado o nome Alice.
Houve quem reclamasse da grafia do nome da homenageada. Pediram revisão. Teimoso, Miró rebateu dizendo que havia feito uma "interpretação livre" e recusou-se a correção. Foi preciso muita lábia de Messer para convencer Miró mudar o original. Miró, então, elaborou o painel da seguinte maneira: dependendo do lado que se olha, pode-se tanto ler Alice quanto Alicia.
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quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Incógnito e Rembrandt


INCÓGNITO é outro filme que tem num personagem
da História da Arte, seu tema principal.
Desta vez o enredo desenvolve-se em torno das
angúastias de um falsificador de quadros -
interpretado por Jason Patrick -
que se vê obrigado a falsificar um Rembrandt.



Jason Patric no papel de mestre-falsificador de Arte Harry Donovan, anseia por livrar-se do negócio de falsificações e tornar-se pintor legítimo mas, antes, empreende um último trabalho monumental: criar um Rembrandt falsificado que engane absolutamente a todos..
A recompensa financeira é boa mas seus clientes causam arrepios, gangsters de Arte que envolvem Harry em um assassinato forçando-o a refugiar-se na Europa com uma perita de Arte a reboque (Irene Jacob).

Preocupar-se com a sorte deste cara não é tarefa aprazível, mas há compensações na agradável performance de Jacob e na presença emocionalmente dura de Rod Styeiger, mentor de Harry.

O diretor John Badham demonstra especial prazer em penetrar no misterioso mundo da falsificação e no detalhamento dos métodos de trabalho de Harry, na pesquisa intensa, na seleção de cores à escolha das ferramentas e processos de envelheciimento.

Badham mantem-nos em constante curiosidade e fascinação por esta perversa união de perícia e fraude, e interessados no esforço que Harry faz para livrar-se do desperdício criminoso de seu talento.




Rembrandt Harmensz van Rijn
nasceu em 15 de julho de 1606 na cidade holandesa de Leyden. Seu pai era um moleiro, evidentemente próspero o bastante para dar a seu filho mais velho uma educação sólida e matriculá-lo na Universidade de Leyden (1620). Rembrandt, porém deve ter escolhido quase que imediatamente tornar-se artista, pois fez um aprendizado de três anos com um pintor local e então, em 1624, passou seis meses como estudante com Pieter Lastman em
Amsterdã. Lastman era um artista habilidoso, educado na Itália, e apresentou Rembrandt ao chiaroscuro, o uso da luz e das sombras para modelar formas e produzir efeitos dramáticos; a técnica seria central à sua arte.


Telas:

Filósofo meditando -1631

Filósofo lendo - 1631

Pilgrims at Emmaus - 1628-29


Durante alguns anos, Rembrandt trabalhou em sua cidade natal, fazendo sua reputação como pintor de quadros bíblicos e mitológicos. Em 1631, ou no início de 1632, mudou-se para Amstendã, onde fez sucesso imediato com

A Lição de Anatomia do Dr. Tulp.











Rembrandt alojou-se com o negociante de Artes Hendrick van Uylenburgh, que se tornou seu sócio e o ajudoua conseguir as muitas encomendas de retratos que o tornaram um jovem artista da moda e da vida abastada.
Em 1634, Rembrandt casou-se com a sobrinha de seu sócio, Saskia van Uylenburgh, e em 1639 o casal pôde comprar uma bela casa na cidade. Três filhos de Rembrandt morreram na infância, e embora um dos filhos, Tito, tenha nascido em 1641 e sobrevivido, Saskia, a esposa de Rembrandt, viria a morrer no ano seguinte.
Mesmo assim, este foi o ano em que o artista pintou o mais celebrado de seus quadros, A Ronda Noturna e alcançou o ápice de seu sucesso público.

Ronda Noturna


Rembrandt Van Rijn é uma das mais eminentes figuras na história da arte européia; muitos o classificam como o maior de todos os pintores. Trabalhou dentro da tradição da arte protestante holandesa e nunca deixou sua terra natal. Ainda assim, foi não apenas um pintor tecnicamente brilhante como também mostrou um novo tipo de percepção: ninguém antes de Rembrandt fez as coisas comuns da humanidade parecerem tão profundamente sérias e interessantes. Em seus quadros sobre episódios históricos e bíblicos, assim como nos seus retratos de contemporâneos ricos e pobres, Rembrandt parece ir direto ao coração. Sua capacidade de percepção pode ter sido baseada no autoconhecimento, pois ele pintou sua própria imagem repetidas vezes, fazendo um registro único da peregrinação da juventude e de sucesso rumo à velhice e ao sofrimento.

Outras telas de Rembrandt:




















Autoretrato




















Retrato de um velho senhor judeu










Danae












Danae /detalhe









sábado, 18 de agosto de 2007


Gore Vidal, no prefácio do livro Peggy Guggenheim una vita per l'arte referiu-se a ela como uma colecionadora de quadros e de seres humanos.
Peggy soube como poucos usar seu o dinheiro para financiar artistas, comprar obras, negociar arte, fundar galerias e um museu. A simples menção do nome remete-nos imediatamente ao Museu Guggenheim de Nova York, que foi fundado pelo seu tio Salomon. Mas o que nem todo mundo sabe, entretanto, é que o amor à arte estava presente em outros membros da família, em especial no coração de Peggy, sua sobrinha.

Um pouco de sua vida

Peggy nasceu em Nova York, em 26 de agosto de 1898,
há quase 110 anos, portanto mas passou grande parte de sua vida na Europa. Seu nome era Marguerite e tinha mais duas irmãs.
Apesar de ter nascido em "berço de ouro" não teve uma infância feliz. Vivia isolada, estudava em casa com tutores, e não teve contato com outras crianças. Somente a partir dos 15 anos que ela começou a frequentar uma escola judaica para meninas, onde se formou em 1915.
Os avós de Peggy - um suíço, Seligman e um alemão da Bavária, Guggenheim - chegaram aos Estados Unidos sem um centavo e fizeram fortunas. O dinheiro se tornou incalculável, quando por casamento, os Guggenheim e os Seligman se uniram.
O pai de Peggy morreu no naufrágio do Titanic.
Era um gentleman. Vestido a rigor, subiu ao convés, enquanto o navio afundava. Num dos botes salva-vidas havia lugar para ele ( os que se salvaram foram os ricos), que declinou a oferta em favor de uma mulher e uma criança.
Esta generosidade para com a vida e seus semelantes seria um dos atributos de Peggy Guggenheim. Herdou dinheiro, alegria de viver, entusiasmo e uma sábia inclinação pelos prazeres da mesa e da cama.
A grande fortuna que herdou, tanto do lado paterno (Guggenheim) quanto do materno (Seligman), destinou à arte e foi com este sentimento que em 1919, após receber sua herança, Peggy dicidiu tranferir-se para a Europa.

Peggy na Europa

À princípio, pretendia fazer uma curta visita mas que acabou tranformando-se numa estadia de 21 anos. Em
Paris, em 1922, casou-se com o pintor Laurence Vail. Tiveram dois filhos mas divorciaram-se em 1930. Com ele aprofundou seu gosto pela arte moderna e foi
com isto que se tornou célebre. Apostou, principalmente no surrealismo, quando esta arte ainda provocava ceticismo, montando uma coleção notável: Giacometti, Brancusi, Marcel Duchamps, Robert Delaunay, André Breton, Max Ernst, Pollock,
Léger, Calder, Kandinski, Paul Klee, Juan Miró, Dalí (sua mulher Gala, invejosa, odiava a vida que Peggy levava), Magritte e outros.
Depois do divórcio, amantes e casos sucederam-se em grande número. E não eram homens comuns!! Entre eles, Max Ernst e Samuel Becket, autor de Esperando Godot. Becket era um homem magro, seco, estranho, calado, de belos olhos azuis mas um sedutor irresistível e um amante infiel ue às vezes trazia uma segunda mulher para a cama. Peggy, por sua vez afirmava: "As mulheres não me agradam muito, elas são aborrecidas e chatas. Prefiro estar com os homossexsuais ou com homens memo."

Em 1938 Peggy abriu sua primeira galeria - a Guggenheim June - em Londres,
cuja vernissage de inaugurção trazia obras de artistas de vanguarda, como Cocteau e Vassily Kandinski. De cada autor que expunha, Peggy sempre comprava uma obra e em pouco tempo já fazia planos para transformar sua galeria em um museu de arte moderna. A eclosão da Segunda Guera a fez mudar seus planos mas não a fez desistir de seu projeto de montar uma grande coleção e foi à França em busca de outras obras. A chegada das tropas alemães em território francês, em 1941, forçou-a a retornar aos Estados Unidos. Em alguns meses ela havia reunido umas 50 obras, entre elas Klee, Miró, Dalí e Magritte e sua preocupação era salvar estas obras dos nazistas. O Louvre recusou-se a proteger a coleção de Peggy "pois esses modernos vão passar logo, logo", ou seja, eram obras que não valiam a pena salvar!!!!! A coleção ficou escondida num castelo próxima a Vichy e mais tarde ela envia a coleção à Nova York, disfarçada no meio de seus vestidos e casacos com a marcação "OBJETOS PESSOAIS".
Durante a época da guerra preocupou-se em dar apoio aos artistas com dificuldade ou perigo de vida. Ajudou vários artistas judeus escaparem do nazismo entre eles Max Ernst que se refugiou nos Estados Unidos e com quem Peggy se casa em 1941. Seu casamento com Max dura 5 anos.

Em Nova York, ela abre o Art of the Century, uma galeria de vanguarda na qual montou um acervo permanente com a coleção que já possuía e onde realizava mostras especiais. Na agenda incluiam-se nomes como Jackson Pollock, a quem Peggy patrocinou por um período pois acreditava no seu talento.
Aliás, sua personagem aparece no filme POLLOCK, interpretada pela atriz Amy Madigan, cuja foto está aqui. O personagem Pollock é interpretado pelo ator Ed Harris.














Amy Madigan como Peggy no filme Pollock

Peggy morreu em 1979, em Veneza onde ela havia adquirido um palazzo , hoje transformado em museu - Palácio dos Leãoes - e onde se encontra toda coleção que Peggy adquiriu ao longo de sua vida.



Outras fotos de Peggy









Veja aqui Peggy Guggenheim Collection

sábado, 28 de julho de 2007

Edward Hopper

Hopper em Paris, 1907


O texto a seguir foi baseados no trabalho de Felipe Soeiro Chaimovich, publicado na revista VOGUE BRASIL nº 229, de 1996, cuja chamada é:

A solidão iluminada de Edward Hopper(1882/1967)



Não há sorrisos em suas
figuras. Seres humanos que
não se comunicam.
Pessoas sentadas em bares,
varandas, mostram a face
melancólica dos americanos.


A luz, um elemento sempre presente na paisagem dos Estados Unidos, não é suficiente para "aquecer" as figuras de Hopper, o pintor da esquisofrenia moderna.
De um lado, o progresso característico das cidades na primeira metade do séc. 20, enchendo esquinas com letreiros e luminosos, de outro, como coadjuvantes do progresso, as pessoas abandonadas à solidão. Exatamente esta separação entre o progresso e os humanos é o cenário do qual Hopper foi o mestre.

" A grande arte é a expressão exterior da vida íntima de um artista, e esta vida íntima resultará na sua visão pessoal sobre o mundo", ele escreveu em 1953. "A vida íntima de uma pessoa é um vasto e variado domínio que não é afetado com estímulos de cor, forma e design".




Um pouco de sua vida:
Em 1900 Hopper matriculou-se na New York School of Art onde estudou pintura com seriedade por seis anos, com os melhores professores da época. Um deles em especial, lhe influenciou fazendo-o interessar-se pela arte francesa, particularmente pelos Impressionistas.
Em Paris estudou a luz e arquitetura da cidade como um impressionista. Ao voltar à América começou a criar telas inspiradas na realidade que via. Sua matéria-prima é o modo de vida circundante: os EEUU de antes da Segunda Guerra Mundial - um país encurralado entre o progresso e a recessão da década de 30, entre os valores puritanos do interior e a desumanização urbana.
Hopper viveu uma vida tranqüila em Myck, cidade às margens do rio Hudson, com sua mulher Josephine, também pintora, a quem deve as primeiras críticas ao seus trabalhos feitos em 1923.


Algumas obras:


Automat, 1927
Já no título, a crítica implícita à sociedade que produz autômatos: uma mulher sentada à mesa, tomando uma xícara de café ( provavelmente ralo e requentado) está toda iluminada por uma luz abrangente, embora fria. Nada parece poder estabelecer contato com ela, habitante de uma metrópole cheia de carros que a ignora. Uma nação automatizada parece povoar o imaginário de Hopper.


Drugstore (1927)

Chop Suey (1929)



Hotel room (1931)



Room in New York (1932)





Nighthawaks (1942)




Sunlight in a Cafeteria (1958)


People in the Sun (1960)


A luz dento dos quadros é fria: por mais que as figuras humanas tentem se aquecer, sempre parecem estar sob um sol de néon. Insistem, no entanto, em ficar expostas, exforçando-se com a cara virada diretamente para a fonte virtual de calor. Elas parecem dotadas de um frio inesgotável, que tentam em vão combater pois não são pessoas: são corpos invadidos pelo progresso. São, na verdade, autômatos.

Outra abordagem interessante sobre Hopper é feita na VEJAOnline, do dia 22 de janeiro de 2007 por Reinaldo Azevedo em:

http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/avesso/2007/01/edward-hopper.html

Mais sobre a obra de Hopper clicando

aqui

e

Obvious



quarta-feira, 25 de julho de 2007

Quando falei sobre as esculturas de Bernini - as minhas preferidas - esqueci de fazer um registro especial:

VITÓRIA DE SAMOTRÁCIA
- a mulher alada -

Tenho uma fascinação especial por esta misteriosa escultura. Muito maior do que pela famosa Vênus de Milo e certamente quando eu for a Paris, vou ao Louvre, onde ela está em lugar de destaque numa das escadarias, para conhecê-la pessoalmente.
Ela representa a deusa Atena Niké (Atena que traz a vitória), cujos pedaços foram descobertos em 1863 nas ruinas do Santuário dos grandes deuses da Samotrácia, na ilha do mesmo nome, no Mar Egeu. Fazia parte de uma fonte, com a forma de proa de embarcação, em pedra calcárea, doada ao santuário provavelmente pela cidade de Rodes. Em grego, o seu nome é Niki tis Samothrakis (Νίκη της Σαμοθράκης).
Foi criada por volta de 190 a.C (período helenístico) e possui 3,28 metros de altura.
Mas, afinal, quem foi Samotracia?
Conta a história que um escultor grego, sem muita fama e com um currículo artístico minguado, teria sido o criador desta mulher alada, tida como "a beleza em velocidade", uma obra-prima da época helenística. Para exaltar a originalidade de seu estilo e a imponência de sua forma, foi decidido que a criação de Pythocrito de Rhodes deveria ficar em um local que chamasse a atenção, preferencialmente bem no alto, no topo de algo, olhando para o mar aberto. E assim foi feito... A mulher alada foi colocada na proa de um navio, indicando a vitória de Rhodes sobre Antiochus III (222-187 B.C.). Esta era uma maneira comum dos gregos expressarem sua homenagem aos heróis de guerra. A Vitória de Samotracia foi concebida através da união de seis blocos de mármore, uma tradição da escultura grega, que costumava utilizar diferentes pedaços de pedra para esculpir suas obras de arte. Depois de séculos, ela acabou sendo descoberta por Charles Champoiseau, arqueologista e cônsul francês em Adrianople, em uma colina na Ilha de Samotracia, daí a razão de seu nome. Destruída pelo revezar do tempo, o arqueologista a encontrou fragmentada em 118 pedaços. A estátua só foi remontada no próprio Museu do Louvre, quando por lá aportou em 1864. No entanto, um dos mistérios que rodeiam Samotracia nunca foi solucionado: sua cabeça parece ter se perdido para sempre. Ainda nos dias atuais, ela é tida como uma das maiores expressões de arte da Era Helenística.

Para refrescar a memória, a Era Helenística marcou a transição da civilização grega para a romana. Convencionou-se chamar de civilização helenística aquela que se desenvolveu fora da Grécia. Esse período histórico situa-se entre 323 a.C., data da morte de Alexandre III (Alexandre, o Grande), e 30 a.C., quando se deu a conquista do Egito pelos romanos.


(réplica exposta no MNBA)


No Museu Nacional de Belas Artes (MNBA) do Rio de Janeiro, existe uma das últimas moldagens/replica da imagem feita em gesso e que pode ser vista pelos visitantes.

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E para quem é fashionista, uma informação adicional: a grife mineira Alphorria, inspirou-se nesta famosa obra quando lançou sua coleção primavera-verão 2003-2004, conforme o texto abaixo que tentei lincar mas não consegui. (não lembro mais como se digita as famosas tags de html)
Este é o endereço:
http://www.assuntodemodelo.com.br/Noticias_Det.asp?Cod=7&id=219

"A Vitória de Samotrácia, uma das mais famosas obras do Museu do Louvre, inspirou a coleção primavera-verão 2003-2004 da Alphorria. Conhecida como Deusa da Vitória pelos gregos, ela foi encontrada, no Mar Egeu, na ilha de mesmo nome, em 1863, em forma de fragmentos de mármore, que depois foram restaurados em Paris.

A Alphorria encontrou identidade nessa escultura alada, feminina, com vestes transparentes e cintura definida. Imagem da mulher idealizada pela marca, ela inspira os panejamentos, os drapês e as moulages criadas para a coleção.

A partir das formas da Vitória de Samotrácia, a coleção entra no universo das asas, explorando também asas de borboletas, asas de pássaros, asas de avião. Os corsets são o fio condutor do desfile e suas amarrações estão presentes em tops, vestidos, cintos. A linha da cintura ganha destaque, assim como os ombros e o busto, realçado em bojos estruturados. A silhueta feminina é marcada por barbatanas inspiradas nos esboços deixados por Leonardo da Vinci, um grande estudioso dos objetos voadores.

As costuras em relevo lembram os veios de asas e os babados em casacos e saias também remetem a esse movimento. O jacquard navalhado, no mesmo espírito, é valorizado por bordados em contas e pedrarias. O plissê compõe panejamentos e volumes. A atmosfera é sempre sexy e feminina.

Vestidos longos fecham o desfile deixando o corpo à mostra: suas formas vazadas destacam a cintura. Os comprimentos vão do mini ao longo, passando pelos joelhos e a cartela de cores destaca o branco, jade, jade claro, violeta, preto, romã e romã claro.

Musseline de seda, cetim stretch, acetinado stretch, algodão lycra, jérsei, musseline de malha, tule e cetim de seda são os tecidos usados pela Alphorria nessa coleção".

De nada, às ordens!